Texto paralelo inglês–português
Two Hundred and Ten Thousand
Duzentos e Dez Mil
DuoText
Uma história original em inglês da série The Night Bakery · A padaria da noite · Episódio 37, com o português ao lado, parágrafo por parágrafo. Leia online ou baixe como um e-book em dois idiomas.
Abrindo o leitor…
Ana put the brush down in the bucket. Red water splashed onto her trainers. Behind her she could hear Daniel standing very still, and Maureen in her doorway, pretending not to listen. The canal was quiet. Somewhere a duck complained about something.
Ana colocou o pincel no balde. Água vermelha espirrou no tênis dela. Atrás dela, ela podia ouvir Daniel parado, sem se mexer, e Maureen na porta, fingindo não escutar. O canal estava calmo. Em algum lugar, um pato reclamava de algo.
She thought very carefully about every word before she said it. She had promised herself never to lie to Jess again. She had also promised Walter a week. For a second those two promises seemed to pull her in opposite directions, so hard that she could not breathe.
Ela pensou com muito cuidado em cada palavra antes de falar. Tinha prometido a si mesma nunca mais mentir para Jess. Também tinha prometido uma semana a Walter. Por um segundo, essas duas promessas pareceram puxá-la em direções opostas, com tanta força que ela mal conseguia respirar.
“I’m not going to lie to you, Jess,” she said finally. “Not ever again. So I’m going to tell you the only true thing I’m allowed to say. It isn’t my story. It belongs to your family. But there is more to it than what the newspaper says, and more than what the town thinks. You need to ask your grandfather. Not next month. Soon. Today, if you can.”
“Eu não vou mentir para você, Jess”, ela disse finalmente. “Nunca mais. Então vou dizer a única coisa verdadeira que posso falar. Essa história não é minha. Pertence à sua família. Mas há mais nela do que o jornal diz, e mais do que a cidade pensa. Você precisa perguntar ao seu avô. Não no mês que vem. Logo. Hoje, se você puder.”
Jess stared at her. For a moment Ana thought she was going to cry. Instead she laughed, a short, hard laugh that sounded exactly like Walter’s. “Of course,” she said. “Another secret. Another person who knows more about my life than I do. Ask Priya, ask Grandad, ask the man on the boat.” She shook her head. “Everyone in this town keeps sending me to someone else. I’m tired of asking.”
Jess olhou fixamente para ela. Por um momento, Ana achou que ela ia chorar. Em vez disso, ela riu, uma risada curta e seca que soava exatamente como a de Walter. “Claro”, disse ela. “Mais um segredo. Mais uma pessoa que sabe mais sobre a minha vida do que eu. Pergunte à Priya, pergunte ao vovô, pergunte ao homem do barco.” Ela balançou a cabeça. “Todo mundo nessa cidade fica me mandando falar com outro. Estou cansada de perguntar.”
“Jess, please…”
“Jess, por favor…”
But Jess was not looking at her any more. She was looking past her, along the path. Ana turned. Michael was walking towards them from the direction of the warehouse, in his work clothes, with his hands in his pockets. He was looking at the ground and did not see them until he was almost at the boat.
Mas Jess não olhava mais para ela. Olhava além dela, pelo caminho. Ana se virou. Michael vinha caminhando na direção deles, vindo do depósito, com roupas de trabalho e as mãos nos bolsos. Ele olhava para o chão e só os viu quando estava quase no barco.
Then he saw everything at once: the bucket of red water, Daniel with his rag, Maureen in her dressing gown, the half-scrubbed letters on the side of his home. And his daughter, standing on the path, looking at him. He stopped. His face did not change, but his hands came slowly out of his pockets.
Aí ele viu tudo de uma vez: o balde com água vermelha, Daniel com o pano, Maureen de roupão e as letras meio apagadas na lateral da casa dele. E a filha, parada no caminho, olhando para ele. Ele parou. O rosto dele não mudou, mas ele tirou as mãos dos bolsos devagar.
Nobody said anything for what felt like a very long time. Then Jess pulled her bag higher on her shoulder. “I’m going to be late for school,” she said to nobody in particular, and she turned and walked away along the canal, fast, without looking back at any of them.
Ninguém disse nada durante um tempo que pareceu muito longo. Então Jess ajeitou a bolsa no ombro. “Vou me atrasar para a escola”, disse ela para ninguém em especial, e se virou e foi embora pelo canal, rápido, sem olhar para trás.
Michael watched her until she had gone round the bend under the old bridge. Then he looked at the side of his boat. He read what was left of the word, quite slowly, as if it was written in a language he was learning. Then he took the brush out of Ana’s bucket, without a word, and began to scrub.
Michael a observou até ela virar a curva sob a ponte velha. Depois olhou para a lateral do barco. Leu o que restava da palavra, bem devagar, como se estivesse escrita em uma língua que ele estava aprendendo. Então tirou o pincel do balde de Ana, sem falar nada, e começou a esfregar.
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